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10/08/2020
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Eduardo Campos, um líder
Por Tadeu Alencar

   
 

Publicado originalmente no portal Congresso em Foco, em 10/08/2020.

O carro deslizava rápido e silencioso pelas ruas de Brasília, com destino ao aeroporto, onde tomaríamos o avião para o Recife. Aguardara uma longa conversa de Eduardo Campos, governador eleito, com o então deputado federal José Chaves, em um restaurante da capital. Persuasivo, Campos convencera o parlamentar a se licenciar da Câmara dos Deputados, para integrar o secretariado. Quando entrou no carro, não parecia cansado. Perguntei: qual é a vitamina? Ao que ele respondeu, sem titubeios: “responsabilidade”.

Era dezembro de 2006 e, a partir dali, foram quase oito anos de uma intensa convivência profissional. Algumas características da sua personalidade saltavam aos olhos. Outras, só o acidentado terreno do cotidiano o revelaria. Era homem decidido. Não ficava paralisado diante dos problemas, aos quais não dava intimidade. Era, porém, curioso o seu processo decisório. Tomava decisões de maneira expedita, mas era capaz de passar horas mastigando uma situação, até que seus olhos brilhavam, indicando que a solução lhe saltara à frente. E era tanto mais decidido quanto mais sabia ouvir, esmerando-se em considerar todos os ângulos de um problema. Era um especialista em tirar a média das coisas e em fatiar as adversidades. Interlocutores saíam aliviados de uma audiência, na qual a resolução de apenas parte de um problema, parecera torná-lo de mais fácil resolução. Era também, calmo, conquanto de um temperamento inflamável, quando tomado de justa indignação.

Quanto maior a dificuldade, mais calmo permanecia. Costumava dizer que “já vira a maré subindo e a maré descendo”. Preparou-se para o espinhoso ofício de governar o Estado, compreendendo o seu significado, pois não é fácil carregar sobre os ombros a tradição libertária de Pernambuco, que é o maior patrimônio do seu povo. Não se perdia no varejo da política, mas não se descuidava dos seus ardilosos detalhes. Tinha o pensamento forjado na matriz política do seu avô, Miguel Arraes, de preocupações com a realidade social do País. E sabia que esse ideal carecia de permanente vigília, para que a máquina pública pudesse melhorar a vida dos mais pobres. Era enérgico na cobrança de resultados, afirmando que o povo lhe confiara aquela indelegável atribuição.

Conhecia o caráter burocrático da Administração Pública e batia-se para que ela fosse instrumento de cidadania. Dizia que a máquina só roda para os graúdos e que resiste em girar em favor dos que dela mais necessitam. Eduardo Campos inaugurou o estilo - raro até então - do político oriundo de escola clássica, com exuberante capacidade de gestão e, mais, com sensibilidade, indispensável a quem gere os negócios públicos. Foi essa característica que fez os seus dois governos inaugurar profundas transformações na vida dos pernambucanos. As escolas em tempo integral, as escolas técnicas, ‘o ganhe o mundo’, os novos hospitais e upas, ‘o mãe coruja’, o pacto pela vida, os empreendimentos estruturadores, como a indústria automotiva, que geraram milhares de empregos e a atenção à sustentabilidade social e ambiental.

Além do carisma e do entusiasmo do jovem governador, marcas imateriais animavam os investidores: segurança jurídica, liderança, gestão eficiente. Não é por outro motivo que o Governo de Pernambuco recebeu o Prêmio das Nações Unidas de Serviço Público, em duas modalidades, além do reconhecimento de organismos multilaterais, conhecedores do anacronismo vigorante na gestão pública no Brasil. Reconhecimento que advinha, também, da população. Era comum a família inteira, atrás de uma cartolina: “Obrigado, Governador, eu ganhei o mundo”.

Esse reconhecimento popular se elevou na sua despedida, em que as pessoas simples, comovidas, foram prestar-lhe a última homenagem. E se na gestão era um dínamo, na política era um enxadrista, com grandes lances de ousadia, que deixavam tontos os seus adversários. Pregou e praticou a paz política, desarmando os espíritos. Era capaz de gestos largos, generosos, mas sabia duelar com vigor. Era um vocacionado para a atividade pública, com diálogo com amplos setores da vida brasileira. Essa transitividade, em momentos, como agora, de interdição do debate político, era uma virtude especial. Na coragem, era desassombrado. Empático, permanente sorriso nos lábios, brincalhão, litúrgico quando se tratava da institucionalidade. Sabia que era preciso ter um projeto de nação, em que a educação tivesse um papel central e em que o seu povo fosse o destinatário do desenvolvimento. Pregava que era indispensável romper o acerto das elites, que admite mudar alguma coisa, para que tudo continue como está.

Candidato a Presidente, denunciava o pacto político mofado que vigorava em Brasília. Era antecipatório nessa crítica, pois percebeu que os ventos estavam mudando quando viu as ruas derramarem uma profunda indignação, em 2013. Era um líder, com o nariz na janela das ruas, atento às novidades que encantavam os jovens. Conhecia o Brasil profundo, o sertão, a fome, a seca, a exclusão e, cada vez mais, as complexidades do País, as diferenças e sabia que era necessário aproximar essas várias facetas de nossa inóspita realidade. Era um idealista que, mudando Pernambuco, preparava-se para mudar o Brasil.

A partir de 2013, o seu gabinete foi destino de líderes nacionais que despertaram para o seu potencial. Leal aos amigos, dedicado à família, dono de um charme pessoal que engolfava os seus críticos e desarmava aliados insatisfeitos. Seu último compromisso público foi na cidade de Bodocó, sertão de Pernambuco, na véspera do seu aniversário. Suas últimas palavras, naquela noite que não sabíamos histórica, foram: “Quero dizer aos meus irmãos de Bodocó, quem tiver um parente em São Paulo, um parente no Paraná, quem tiver um parente no Rio de Janeiro, espalha a notícia, diga o que nós fizemos juntos aqui em Pernambuco. O Brasil vai se acostumar a ver nordestino presidindo o País”. Hoje faria cinquenta e cinco anos. Olhando a cena atual e a sua rarefeita constelação de líderes, me fez pensar na falta que ele nos faz.

 
 
  Por: Sérgio Francês / Chico Ferreira
 
 
     
 
       
 
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