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8/3/2010
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Zilda Arns
 
Da mesma forma que todos os presentes a esta Sessão Solene, quero registrar profundo pesar pela morte de Zilda Arns e render sincera homenagem à vida de realizações extraordinárias dessa notável brasileira.
Caso houvesse persistido estritamente numa carreira de médica pediatra e sanitarista, ela já teria prestado enorme serviço à população brasileira, tão necessitada de profissionais de saúde dotados de uma visão que transcenda os limites de uma medicina meramente clínica e medicalizadora. Mas Zilda Arns queria mais, porque compreendia que era necessário muito mais, e em 1983, atendendo a convite de seu irmão, o então cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, decidiu dedicar sua vida à construção e à atuação da Pastoral da Criança.
A Pastoral da Criança, sras. e srs. Deputados, persegue um objetivo grandioso: promover o desenvolvimento integral das crianças, desde a concepção até os seis anos de idade, associado à melhoria da qualidade de vida das famílias e das comunidades. Esse objetivo está em plena sintonia com o escopo da Organização Mundial da Saúde, para quem saúde não é simplesmente ausência de doença, mas sim qualidade de vida; está igualmente em sintonia com as concepções norteadoras do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que concebe o desenvolvimento como um processo multidimensional, não limitado, portanto, à esfera econômica, uma vez que incorpora, de forma integradora, aspectos essenciais ligados à saúde, à educação e às demais áreas sociais, como moradia, transporte, segurança, cultura, além de conferir especial atenção aos direitos de participação das comunidades na construção do seu destino.
Nesses mais de 25 anos de existência, a Pastoral da Criança colheu resultados impressionantes, aliando planejamento rigoroso e trabalho voluntário, impulsionados pelo que ela certa vez definiu como a mística cristã do amor pelo próximo. Todas as ações da Pastoral da Criança baseiam-se numa combinação entre simplicidade e eficácia, o que abre caminho para que qualquer membro de uma comunidade, mesmo os desprovidos de instrução formal, possa se engajar em ações de grande poder transformador da vida das crianças, sobretudo em ambientes duramente marcados pela miséria. Entre esses resultados impressionantes, avulta a drástica redução da mortalidade infantil, por meio da vitória contra a desnutrição e a desidratação.
O que torna o trabalho da Pastoral da Criança especialmente comovente e inspirador é o fato de se apoiar nas próprias capacidades da comunidade. As soluções estão todas ali, no mais das vezes, ainda ocultas; o papel da Pastoral da Criança é trazer essas soluções a lume e, por meio da formação de multiplicadores, permitir que sejam implementadas.
Os êxitos da Pastoral da Criança correram mundo e a presença de Zilda Arns passou a ser demandada onde quer que a morbimortalidade infantil assomasse como um flagelo. A morte sobreveio na única circunstância que sua vida tornara possível: a do cumprimento da nobre missão a que se entregara.
É evidente que um trabalho como esse não teria ido tão longe não fosse a figura singular de Zilda Arns, ela mesma um exemplo vivo e irradiador da tal mística cristã do amor pelo próximo. Uma de suas marcas inconfundíveis era o sorriso franco e permanente, a infundir em todos entusiasmo e confiança, com vistas à realização de uma tarefa, cujo sucesso, à primeira vista, poderia parecer impossível.
Em uma passagem do livro A peste, de Albert Camus, um dos personagens dedicados a socorrer as infindáveis vítimas compartilha com um companheiro, mesmo em meio a tanto sofrimento, sua opção existencial pela alegria, que não se confunde com a indiferença e é, no fundo, o combustível fundamental para prosseguir numa luta tão difícil.
Mutatis mutandis, pode-se dizer o mesmo de Zilda Arns. Diante da miséria e da desigualdade, que são a peste do nosso tempo, ela realimentava seu espírito daquilo que os filósofos de todos os tempos chamaram de “boa disposição para o viver” e que a juventude brasileira, há algumas décadas, batizou de “alto astral”. Ela compreendia que uma alma previamente nutrida de júbilo e fé possui uma força irresistível, que tende a prevalecer, mais cedo ou mais tarde, contra qualquer obstáculo.
No momento em que pranteamos a morte de Zilda Arns, somos inevitavelmente tomados pela dor e a tristeza. Tenho certeza, porém, que ela gostaria que nos lembrássemos dela sempre com alegria, essa alegria que foi um de seus traços típicos e da qual precisamos tanto para superar as dificuldades que ainda nos separam de um Brasil melhor para todos.
Muito obrigado,

Deputado Federal Rodrigo Rollemberg/Líder do PSB
 
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Zilda Arns
     

 
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